sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Melancholia



Lars von Trier tem esse elemento de peculiaridade muito marcante em seus filmes. Tudo bem, Anticristo realmente não rolou para mim, mas o resto me faz lembrar das sensações que tive ao ver Melancholia. Nos seus filmes, um personagem principal vive uma determinada situação extrema. No começo, tudo parece sem sentido, até que se encaixa progressivamente e continua em um crescendo poderoso em que a última cena é um clímax horrendamente impactante e de tirar o fôlego até tempos depois da sessão acabar. Lembro bem dos desconfortos estéticos do começo de Dogville, do ambiente caótico, aparentemente "pointless" de Os Idiotas, do sufocamento moral em Dancer in the Dark - nesse, fiquei um dois dias chorando...

O desconforto me marcou mais uma vez no início de Melancholia, mas por razões circunstanciais. Acabei me sentando na fileira do gargarejo, lá na frente. O que me deixou irritada a ponto de dormir e boicotar pedaços da primeira parte se revelou uma experiência figadal (tudo menos o clichê "visceral") nos últimos momentos. As cenas bizarras em extremo slow motion que me irritaram no começo viraram epifanias, minhas e de Justine. Não há uma quebra de sentido entre as duas partes, nem um aspecto misógino na caracterização da fragilidade de Justine e da dependência de Claire versus a racionalidade de John. Lars von Trier há tempos tem dito que seus homens racionais não são nada mais do que grandes bobos, por sinal... Não se trata de uma questão de gênero, mas sim de percepções.

Os detalhes fazem o todo no filme, como sempre no diretor. A banalidade cretina da limusine que não faz a curva. O número dos feijões na garrafa; ah, o número dos feijões na garrafa... Claire estranhando por que o mordomo não foi trabalhar, pois nunca pensou se ele tinha família ou não. A espera, literalmente sufocante. A doença (googlada, racionalizada) de Justine, que descobrimos que nada mais é do que a reação ao fim. Os zooms são sempre a chave, os closes nos olhares perdidos.

Acordei de madrugada pensando no final, no detalhe daquela enorme diferença entre as reações de Justine e Claire embaixo da "cabana mágica" e não consegui mais dormir.

E ele usa Wagner, É ÓBVIO:

sábado, 27 de agosto de 2011

American Girl

Arrumei mais um trauma de infância (aos 34 anos). Descobri uma linha de bonecas históricas nos EUA chamada American Girl. A ideia é recriar determinados períodos da história americana através de bonecas feitas para serem "amigas" das meninas - e não "filhas", o clássico atributo da boneca. Como tantas coisas americanas, é meio doente: vende-se a boneca, a boneca embalagem premium, a mini-boneca, trocentos vestidinhos diferentes, acessórios e móveis da casa da boneca - a brincadeira pode chegar a 600 dólares por coleção.

Mas o negócio é o seguinte: aprenda história americana com as bonecas, certo? A linha começa com uma índia em 1764, já que depois, com o extermínio das nações indígenas americanas, elas não são mais representativas na História.
Depois seguimos com a mexicana, quando os hispânicos ainda viviam só no Novo México. A Josefina Montoya (todas têm sobrenome e livrinhos contando suas aventuras) tem véu preto de ir à igreja, uma cabra de estimação (!?), um forninho de barro para cozinhar tortillas e um tear para ficar trabalhando em casa. A história da Josefina, segundo o site: "As a New Mexican girl growing up in 1824, Josefina is trying to preserve what is precious after her mother’s passing. Josefina is overjoyed when her mother’s sister, Tía Dolores, comes to live on the family rancho, but worries about her new ideas. Can Josefina welcome change and still remember the old ways?" Uma lágrima caiu do meu olho esquerdo com a história da bonequinha que é ainda da irmã egoísta da Josefina, devidamente um acessório extra: "Mamá made this precious doll, named Niña, to be passed down in a beautiful new dress to each of the sisters on her eighth Christmas. But when Mamá died, Clara was too sad to part with Niña. Still, Josefina hopes that one day Niña will be hers to treasure."


 Josefina com roupa de Natal e a cabrita que é a alegria da família...

Já em 1853, temos as amigas Cécile (mestiça, ou seja, "negra" para os americanos) e Marie-Grace, que vivem em Nova Orleans na época da epidemia de febre amarela (!!?). A Marie-Grace é branca, portanto riquinha, como vemos por seus acessórios: 
Depois, em 1864, temos a bonequinha negra, Addy Walker ("A Cor Púrpura"?), corajosa menina que foge da Guerra Civil e da escravidão! Addy também tem vááários vestidos, óbvio, acessórios de inverno, botas, meias, kit de sorvete (!!?) e sua bonequinha de pano recheada de feijões, que mamãe fez e Addie ganhou de presente de Natal.


Addy com sua roupa de empregada verão, e sua boneca: "The doll shines with a sunny hand-stitched face, a dainty purple dress, and tiny gold earrings."

Em 1914 temos a boneca imigrante russa judia, naturalmente denominada Rebecca Rubin. Representando dois segmentos significativos da sociedade americana, Rebecca tem kit de Hanukkah, xale russo, álbum de fotos, dois gatinhos, cristaleira de Sabbath, cama de balé de Tchaikovsky, e olha só o kit patriótico que ela leva para a escola:
 Lancheira com bagel, picles e rolinhos kosher, e partitura com canção patriótica e bandeirinha para abanar quando canta.

Para 1934 (por que essa fixação com anos terminando em 4?), Kit Kittredge e sua amiguinha Ruth (dobrando os acessórios para cada coleção), "resorceful girls during the Great Depression" (!!?). A vida delas é dura, apesar dos inúmeros vestidinhos, patinete, telefone, boneca de Amelia Earhart (!!?), kit para cozinhar cookies, compotas, cachorro e máquina fotográfica.
 A vida dura da boneca em casa.

Os tempos difíceis ainda não acabaram para a América, pois em 1944 temos a mini-nerd Molly McIntyre e sua amiga inglesa Emily (intercâmbio??). Porém, como estamos longe do palco da guerra, Molly pode nadar tranquilamente com seu maiôzinho, ir à festa mascarada de fantasia havaiana (!!?), esquiar na neve e participar de concursos patrióticos de sapateado.
 Molly tirou os óculos (também vendidos em separado) para dançar, sabe como é.

Para também representar os democratas, temos as amigas hippies chic de 1974, Julie Allbright (ih, republicanos também?) e Ivy Ling (mais imigrantes). Já podemos imaginar a jovem Julie com seus amigos na festinha de fondue, e ouvindo discos em seu quarto:
A perplexidade foi mesmo total quando imaginei uma série equivalente, de bonecas representativas da História do Brasil - com suas roupinhas, acessórios e móveis. Trauma, trauma...


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Boston


O rapaz da loja de souvenirs do hotel me disse que Boston é a capital mais européia dos EUA. Dito por um brasileiro, isso soaria coisa de cospobre de elite desenvolvida, mas ele tinha razão (e esclarecia, "New York is crowded, dirty, awful!"). Essa é a vista do meu quarto, em Copley Place, um hotel que fica no meio de dois shoppings, nada mais americano. A parte central da cidade é sim meio européia, com esses prédios de tijolos todos iguais que me fazem lembrar da Inglaterra e da parte não comunista de Potsdam. Gostei muito da linha verde do metrô, que é toda pequena, com trilhos no nível da plataforma e trens que parecem trams europeus velhos - ainda tem um ar de século XIX ali. Fiquei admirada com a tamanha simpatia dos americanos, a grande quantidade de asiáticos em todo lugar, as placas públicas bilíngues em inglês e espanhol, e o doentemente delicioso prato de frutos do mar que comi enquanto via o Brasil perder nos pênaltis para os EUA no mundial de futebol feminino... Ah, e com as diárias do hotel, de preço igual ao Formule 1 do centrão do Rio, mas beeem mais luxuoso! Quero voltar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Visto para os EUA - a entrevista

Fui hoje ao consulado no Rio de Janeiro para a minha entrevista. Dia pavoroso de frio, chuva e vento.

Minha entrevista estava marcada para as 8:10h, e já peguei uma fila razoável do lado de fora do prédio - ainda bem que eles instalaram um toldo. Uma boa parte das pessoas não sabia que não é permitido entrar com celular (e nenhum outro dispositivo eletrônico, nem pendrive), e as aves de rapina da banquinha "guardamos seu celular" já ficam à espreita. Confira várias vezes todos os itens necessários para levar, pague a taxa com antecedência e já tenha tudo à mão. Entrei rapidinho.
Lá dentro, claro, a coisa é outra. Primeiro dão a senha rosa para colher as digitais e pegar a guia do sedex (a agência é lá dentro, só para isso). Depois das digitais, a senha branca para a fila da entrevista. Muita gente, muitas filas para todos os passos. A entrevista é feita em pé, na frente de um guichê blindado, e dentro de umas baias de vidro - quem está na fila ouve tudo. A minha não durou nem 2 minutos e o funcionário nem pediu para ver meus documentos. Perguntou para onde eu ia, qual o motivo e qual era o meu emprego, só. No meu caso era um pedido para participar de uma conferência, então imagino que para estudantes e turistas a coisa deve ser mais demorada. De qualquer forma, ouvi por aí que os vistos têm sido concedidos com mais facilidade por causa da crise econômica lá - vai ver que querem mais turistas gastando.
O clima do lugar é muito tenso, as pessoas ficam muito apreensivas. Enquanto eu esperava na fila, o funcionário que estava entrevistando um senhor perguntou "onde mora?", com aquele português cheio de sotaque ("onDCHI mora"). O cara entendeu "pode ir embora" e saiu.

UPDATE IMPORTANTÍSSIMO: Quem conseguir esse visto em 48 precisa buscá-lo impreterivelmente das 15h às 15:30h. Um minuto depois e você dançou, simples assim.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Visto para os EUA

Fiquei surpresa com a quantidade de "serviços" de terceiros e dicas de curiosos na internet sobre como pedir um visto para os EUA. Escrevi para pessoas, liguei para parentes, postei no Facebook, mas aprendi mesmo que o caminho das pedras, só fazendo. No caso, como o meu pedido era com urgência, eu precisava de passos extras que nenhum dos meus conhecidos sabia. Compartilho a minha experiência, caso alguém procure no Google e caia aqui:
- Tem muitas orientações no site da embaixada americana, especialmente sobre as categorias de visto diferentes. O passo-a-passo começa lá também.
- O procedimento mesmo começa em http://www.visto-eua.com.br/. Em primeiro lugar, é necessário pagar a taxa de 38 reais (pode ser por cartão de crédito online) para poder agendar uma data para a entrevista. A taxa gera uma senha numérica que deve usada na hora de ligar para o serviço de informações. Para quem precisar marcar com urgência, reserve um dia normal mesmo assim. Sim, a espera costuma ser gigantesca. Feito o agendamento, o requerente recebe um email com a confirmação.
- Veja as especificações da foto digital que deve ser anexada no formulário. Você precisa dessa foto e de outra 5x7 impressa, para o dia da entrevista. Acho mais seguro fazer em algum laboratório fotográfico, porque as especificações são chatinhas e eles não aceitam o formulário se elas não estiverem corretas.
- Agora, a parte mais chata, preencher o formulário D-160. Ele é todo em inglês, mas tem uma janela com a tradução em português quando você passa o mouse. Se isso não funcionar, procure no google porque há algumas páginas onde as pessoas traduziram os campos do formulário e a ajuda.
- Anote o application number, no canto superior direito!! Salve o formulário no fim de cada página preenchida. O servidor cai constantemente (deve ser por segurança, não é possível que seja um servidor tão frágil!) e se você não salvar, vai precisar começar tudo de novo.
- Com o formulário preenchido e assinado, salve e imprima tudo. Para ir à entrevista, todas as instruções sobre o que levar estão no texto que é enviado por email.
- Pague a taxa de 140 dólares (para vistos de negócios e turismo, B1 e B2 - outros valores estão no site da embaixada) convertidos em reais no caixa do Citibank. Só aceitam pagamento em dinheiro. O pagamento deve ser feito até dois dias antes da entrevista.
- Para quem precisa de antecipação da entrevista com urgência: depois de ter feito o agendamento normal e preenchido o formulário, acesse de novo o http://www.visto-eua.com.br/, entre em "Informação e agendamento" e depois no link da última linha ("Se você já realizou o seu pagamento, clique aqui."). Lá tem um link para o formulário de requerimento de antecipação da entrevista, onde você irá justificar o pedido e anexar cartas que confirmem suas informações. Se o pedido for aprovado, você receberá um email com instruções para ligar para o telefone da embaixada e remarcar a entrevista. Aí será necessário cancelar o agendamento anterior e pagar 38 reais de novo.
Tenho a impressão que esses serviços de terceiros que cobram caro para marcar entrevistas com antecedência fazem exatamente isso... Claro, tudo tem mais chance de dar certo se todas as informações forem completas e verificáveis (ou seja, verdadeiras). Para isso, verificar sistematicamente todos os passos é fundamental.


Ainda não fui à minha entrevista, mas consegui antecipá-la de novembro para a semana que vem!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mas, me conta...


Maquete do estádio da abertura da copa. Aham, Cláudia, senta lá. Enfim, gostaria apenas de analisar um pouquinho a imagem. Veja as pessoas circulando pelo estádio no desenho. Onde estão as catracas e o controle dos ingressos? Como assim essas rampas sem proteção alguma? E aquela entrada nas laterais do lado direito, é ir chegando e entrando? O estacionamento para ônibus é aquela merrequinha ali do lado? E aquele canto do suicídio ou fumódromo do lado inferior esquerdo? É ESSE O PADRÃO DA FIFA?? Ouié, Cláudia. No site do clube tem mais imagens, a última provando exatamente meu ponto.

terça-feira, 14 de junho de 2011


O atropelamento e morte do ciclista perto da Av. Sumaré me fez lembrar mais uma vez da relação de desejo e terror (talvez mais preciso do que "amor e ódio") que eu tenho com a bicicleta. Tenho sim vontade de usar menos o carro e mais a bicicleta, embora eu tenha dois problemas técnicos sérios: estou fora de forma e não sei andar de bicicleta com marcha, como a que eu ganhei. Não sei por que as pessoas riem ou fazem cara de espantadas quando digo que não consigo andar de bicicleta com marcha - vai ver que todos nasceram sabendo e eu fiquei de fora, enfim... Aqui no Rio tem as ciclovias da orla, do Aterro, da Lagoa, mas para chegar lá eu preciso vencer os morros de Sta. Teresa para sair de casa (claro, o problema é na volta) e enfrentar o trânsito - ou amarrar a bicicleta na traseira do carro, uma contradição em termos que me incomoda profundamente. Em SP é impossível, só na ciclovia de domingo que um dia ainda hei de conseguir frequentar. Morria de inveja das pessoas em Berlim, que andavam de bicicleta para todo canto, em um lugar (plano!) que tem ciclovia por toda cidade. Tenho sonhos recorrentes em que ando de bicicleta e sinto uma liberdade e autonomia imensas... Mas lamento, não tenho coragem de encarar um trânsito feito para carros, ônibus e caminhões. Enfrentar teimosamente essa situação é pedir para ter problemas.